| Como a natureza
conseguiu montar os ácidos nucléicos (DNA e RNA), se
precisa para isso de moléculas, proteínas e enzimas,
que teriam de ser pré-existentes? Esse aparato, por sua
vez, não deveria estar codificado pelo próprio DNA (ou
RNA)? Estamos diante do mesmo dilema: quem nasceu
primeiro, o ovo ou a galinha? Na
ausência de evidências fósseis dos sistemas que
originaram os seres vivos, tenta-se montar modelos
químicos plausíveis, ou seja, compatíveis com as
condições da Terra primitiva. O ser vivo é um sistema
semifechado (não-isolado), com metabolismo (transforma
matéria e energia do ambiente) e reprodução (estável
ao longo de gerações). Seus componentes fundamentais
são proteínas, para o metabolismo, e ácidos nucléicos
(DNA e RNA), para replicação. Os ácidos nucléicos
aumentam a estabilidade reprodutiva, que seria pobre em
sistemas apenas protéicos.
Hoje, acredita-se que a molécula-fundadora teria sido o
RNA, porque pode ter atividades enzimáticas (como ocorre
com as ribozimas) e até auto-replicativas (em tubos de
ensaio). O DNA seria um análogo do RNA, mais estável e
acrescentado posteriormente ao sistema. Propõe-se que as
ribozimas atuais sejam remanescentes das primitivas e
que, na origem dos sistemas vivos, as atividades dessas
enzimas teriam sido mais relevantes, inclusive para a
tradução (síntese, a partir de informação genética)
de proteínas. No caso, RNAs realizariam eles mesmos a
ligação de aminoácidos para formar proteínas. O maior
problema com essa hipótese é que as ribozimas
conhecidas têm atividades limitadas e são moléculas
muito complexas, e os próprios nucleotídeos (unidades
componentes dos ácidos nucléicos) ainda não são
obtidos em modelos químicos plausíveis. Tenta-se,
então, desenvolver análogos de RNA com estruturas mais
simples (ver 'Pesquisa sobre origens da vida em fase de
sondagens', em Ciência Hoje nº 127).
É mais fácil obter aminoácidos e moléculas mais
complexas pelo lado das proteínas. No entanto, suas
atividades catalíticas (como enzimas) são muito
numerosas, o que torna difícil conseguir a partir delas
um sistema integrado, que possa funcionar como
protometabólico e gerador dos ácidos nucléicos.
Portanto, falta muito a investigar, em ambos os pólos,
'do ovo e da galinha'. No estágio atual, o melhor seria
dizer que a vida começou quando os dois sistemas --
ácidos nucléicos e proteínas -- confluíram,
tornando-se interdependentes. Isso evita a pergunta sobre
a origem unitária e monomolecular e descarta as
hipóteses sobre 'moléculas vivas'. A origem da vida
seria associativa.
Tal associação estaria baseada na compatibilidade entre
as moléculas mais simples (compostas sempre de carbono,
hidrogênio, oxigênio e nitrogênio) e entre as
seqüências mais complexas que tais moléculas formam
(proteínas e ácidos nucléicos). Na Terra primitiva, as
seqüências podem ter sido 'montadas' com a ajuda de
superfícies-modelo, como as de cristais de argilas (que
se agrupam de modo ordenado) ou de membranas lipídicas
(que espontaneamente formam vesículas, ou seja, sistemas
semi-fechados). Tais modelagens ocorrem na água
líquida, elemento ambiental essencial para a vida, pois
a organização linear e espacial das biomoléculas
depende de propriedades hidrofílicas e hidrofóbicas.
Ainda não há uma resposta definitiva para as perguntas
feitas, mas esses pontos permitem montar um projeto de
pesquisa razoável e plausível.
Romeu Cardoso
Guimarães
Departamento de Biologia Geral
Universidade Federal de Minas Gerais
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