Um passo além do genoma humano

Cientistas brasileiros mapeiam o proteoma de células sangüíneas


Proteínas de neutrófilos estão sendo mapeadas na Universidade de Brasília


   O anúncio do rascunho do genoma humano foi festejado, mas deixou claro que se tratava apenas do início de descobertas maiores e mais importantes para a genética. Um dos passos seguintes é o mapeamento das proteínas humanas e a análise de suas funções - o chamado proteoma. Essa etapa, ainda distante, começa a se tornar uma realidade palpável no Centro Brasileiro de Serviços e Pesquisas em Proteínas, na Universidade de Brasília (UnB). Em seus laboratórios, são realizados paralelamente o estudo de proteomas humanos e animais. No último caso, encontram-se os de venenos de aranhas e cobras, que começaram a ser estudados há quatro anos. O objetivo é o desenvolvimento de soros e antídotos. Segundo Marcelo Valle, coordenador técnico-científico do centro, tais resultados ainda não existem, mas devem começar a surgir em cerca de cinco anos.

   A meta principal da pesquisa, no entanto, é a conclusão do proteoma dos neutrófilos, um tipo de célula sangüínea que pode provocar a falência múltipla de órgãos em pacientes de UTI. Essa possibilidade é determinada pelos genes; conhecendo-se o proteoma da célula, seria viável prever o quadro e tomar providências para tentar atenuá-lo - como, por exemplo, a administração de antiinflamatórios.

   Não se deve, no entanto, esperar que o proteoma traga respostas a todas as questões que envolvem o funcionamento do organismo humano, alerta Valle. Assim como o seqüenciamento do genoma, o mapeamento protéico não teria, em si, funções práticas. "Conhecermos apenas as proteínas não é tão importante quanto sabermos as relações entre elas, e entre as pessoas e o ambiente."

   O proteoma é um projeto que pode ainda levar décadas para se concretizar. Segundo cálculos do pesquisador, a quantidade de proteínas existentes no organismo pode ser até mil vezes maior que o número de genes, estimado entre 30 e 100 mil. Some-se a isso a especificidade de algumas proteínas, que surgem apenas em dados momentos da vida, como na fase embrionária ou em doenças decorrentes da velhice, e o objetivo do mapeamento torna-se ainda mais longínquo.

   Por essa razão, já se propôs a criação de uma linha de pesquisa internacional. Segundo Valle, o americano Craig Venter, presidente da Celera Genomics, a empresa que mapeou o genoma humano junto com um consórcio púbico internacional, seria um dos defensores da idéia. Se o ambicioso projeto chegar a um termo, levantará informações essenciais para o desenvolvimento de novos tratamentos - ainda que não explique definitivamente o funcionamento do organismo.

Volta ao topo